sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AMANHÃ 03/11 TEM QUARTETO TOCCATA E PLÍNIO FERNANDES NO VIOLÃO NO MASP.






No Programa:

Quarteto Toccata

F. M. Torroba (1891 - 1982)                          -Estampas
                                                                         I   - Bailando un Fandango Charro
                                                                        II  - La Siega
                                                                        III - Fiesta en el Pueblo

L. Boccherini (1743 - 1805)                          -Introdução e Fandango

L. Brower (1939)                                            -Toccata

A. Piazzolla (1921 - 1992)                            -Adiós Nonino
                                                                         (arranjo Jardel Vinícius)

A. J. da Costa (1919)                                     - Choro nº 4*
(Sarrafo)                                                        (arranjo Marcos Araújo)

C. Gomes (1836 - 1896)                                -O Burrico de Pau

P. Bellinati (1950)                                        -Baião de Gude

A. Sáter e P. Simões (1956 e 1956)             -Comitiva Esperança
                                                                         (arranjo Jardel Vinícius)

Plínio Fernandes 

-John Dowland :

 Melancholy Galliard
 Sir John Smith his almain
 The Right Honourable the Lady Cliftons Spirit

-Sylvius Leopold Weiss:
 Passacaglia

- Fernando Sor:
 Variações Sobre a Flauta Mágica

-Manuel Ponce :
 Sonata Clássica
I -Alegro
II -Andante
III -Minueto
IV -Alegro

-Sergio Assad:
 Valseana

Joaquin Rodrigo:
 Fandango


SERVIÇO:
VIOLÃO NO MASP – RECITAL 
QUARTETO TOCCATA E PLÍNIO FERNANDES
Dia 03/11/2012 às 16horas
Com ingressos a R$7,00(meia) e R$ 14,00 (inteira).
Auditório do MASP
MASP-MUSEU DE ARTE DE SP
Avenida Paulista n.1578 – Bela Vista – São Paulo



Fonte: Assessoria de Imprensa do Violão no MASP

NOTÍCIAS: O PIANISTA PAULO GAZZANEO INTERPRETA VILLA-LOBOS E AMARAL VIEIRA NOS ESTADOS UNIDOS


Paulo Gazzaneo
Foto: Divulgação

O pianista paulistano Paulo Gazzaneo faz uma temporada de concertos nos Estados Unidos entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro, onde fará importante trabalho especialmente focado em dois compositores brasileiros: Heitor Villa-Lobos e Amaral Vieira, além de masterclasses e conferências.

Gazzaneo vem trabalhando, há mais de duas décadas, a obra para piano de seu mestre Amaral Vieira e já gravou três CDs inteiramente dedicados às composições do compositor paulista.



Ele toca nos estados de Georgia, Wisconsin e Iowa, mostrando ao público norte-americano, as seguintes obras dos compositores brasileiros, além do Concerto n.5 Imperador de Beethoven:

Heitor Villa-Lobos
Foto: Internet

* VILLA-LOBOS (1887-1959): A Lenda do Caboclo, Valsa Da Dor e 5 Cirandas (Que lindos Olhos, Nesta Rua, nesta Rua, Vamos atrás da Serra Calunga, Passa passa Gavião e O Cravo brigou com a Rosa.
Amaral Vieira
Foto: Divulgação




* AMARAL VIEIRA (1952): A Alvorada op. 268, Sete peças para piano op. 169, Movimento de Concerto op. 194, Cenas Rupestres op. 173, O Alvorecer do Século da Humanidade op. 256 e Toccata Festiva op. 285.







Fonte: Thesaurus Music

CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO "O PENTAGRAMA".

DUAS BELDADES CANTAM MISSA DE MOZART NA SALA SÃO PAULO
Publicado originalmente no blog "Ópera e Ballet"


A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo apresentou no último dia 26, um programa eclético, sob a batuta de Louis Langrée tivemos de Alfred Schnittke a excêntrica Moz-art à  la Haydn e a de Haydn a Sinfonia 44, Fúnebre ( o homem compôs mais de cem)    e  para fechar o programa de Mozart a obra Davidde Penitente.

Trazer música nova, diferente e moderna é função de toda grande orquestra. Devido à consistência da programação a OSESP tem o direito e o dever de apresentar uma obra como Moz-art à la Haydn. 

Pequeno número, músicos que tocam sons estranhos, alguns deles inspirados nos compositores do título, fazem diversas gracinhas, vão entrando no escuro do palco e deixam o maestro completamente só no final. O público vai ao delírio. Musicalmente nada de interessante, mas diverte a galera.


OSESP
Foto: Internet
O programa começa para valer com a Sinfonia 44, Fúnebre de Haydn . De fúnebre a sinfonia não tem nada, leva o apelido pelo desejo do compositor de ter o adágio tocado em seu enterro. Ninguém sabe se é verdade ou não, mas o apelido pegou. A peça é recheada de belos números musicais e um lirismo expressivo. 

A OESEP nas mãos de Langrée tocou com qualidade, mostrando as belas passagens líricas do título.
Maestro Louis Langrée
Foto: Internet



Depois de um merecido intervalo tivemos a Missa Davidde Penitente de Mozart, o genial compositor pegou trechos de outros compositores que eu nem imagino quem sejam e retalhou aqui, acrescentou ali e mudou acolá. Ninguém o processou na época, direito autoral só viria bem depois. Fazer isso era comum entre os compositores e na época Mozart estava atolado em encomendas.


Mari Eriksmoen
Foto: Internet

A obra é interessante e os solistas a tornaram especial. Mari Eriksmoen mostrou uma linda voz lírica com projeção absurda. Timbre delicado que encantou a platéia, uma voz sedutora, valeu sua vinda da distante Noruega. Além da voz a moça irradia uma beleza européia única, sedutora, deixa os marmanjos babando e as senhoras morrendo de inveja. O soprano fará em breve sua estreia no Scala de Milano. Valeu a passagem e o cachê, essa canta muito. 


Luisa Francesconi
Foto: Internet

Luisa Francesconi não fez por menos, mostrou uma voz quente, com graves portentosos e fartos. Tirou de letra as difíceis coloraturas que a obra exige , a beldade brasileira tem técnica, afinação e talento de sobra. Um mezzo-soprano pronto para brilhar. O tenor Colin Balzer não fez mais que a obrigação, sua voz é comum e nada interessante. Seu timbre não empolga.


Destaque para o Coro da OSESP regido pela sempre competente Naomi Munakata. Cantou com intensidade e volume celestial. Uma interpretação feita com brilhantismo. Deu vida a uma obra que nos transporta a outra dimensão. A OSESP esteve em noite inspirada, tocou muito bem. Os naipes tiveram alguns desencontros, mas nada que tirasse o brilhantismo da obra. Os cinqüenta minutos da missa passaram rapidinho. 


Por Ali Hassan Ayache



Fonte: Ali Hassan Ayache -  Blog Ópera e Ballet

Bravo !!! Cinco pianistas brasileiros ganharam bolsas para estudar em Paris.


A Sociedade Brasileira de Eubiose, departamento Lacerda Franco, promoveu master classes com a pianista brasileira Helena Elias para selecionar um pianista que ganhasse uma bolsa para estudar na Ecole Normale de Musique de Paris. Impressionada com o nível dos alunos, a pianista pediu autorização para o conservatório em Paris premiar mais 4 pianistas que foram selecionados depois de vários dias de análise. “São talentos promissores que, sem dúvida, associarão a Eubiose ao seu período de aperfeiçoamento artístico” relata Gustavo Julio Kuhlmann, Administrador-Adjunto.

Os escolhidos foram:
Fernando Henrique de Oliveira
Foto:Divulgação

Fernando Henrique de Oliveira – 23 anos – aluno do Professor Fernando Corvisier

Vinicius Augusto Costa – 19 anos - aluno dos Professores Nahim Marun e Fernando Tomimura

Alessandra Odazaki – 23 anos – aluna do Professor Daniel Matos

Giancarlo Staffetti – 19 anos – aluno da Professora Maria José Carrasqueira

Ariel Magno da Costa – 21 anos - aluno da Professora Maria José Carrasqueira

Vinicius Augusto Costa
Foto:Divulgação

A bolsa não contempla passagem, nem estadia.


Participaram 18 jovens entre 15 e 23 anos. Estavam presentes também os professores e pianistas Ciro Gonçalves Dias Jr, Maria José Carrasqueira, João Antonio Parizoto Filho e Miguel Laprano.

Alessandra Odazaki
Foto: Divulgação



“É com enorme alegria que nós da Eubiose – Departamento Lacerda Franco, estamos trabalhando, de forma definitiva, para a descoberta e para o progresso e aperfeiçoamento de jovens talentos brasileiros.  A todos eles, nossos votos de grande sucesso” finaliza Kuhlmann.



Giancarlo Staffetti
Foto: Divulgação

A Sociedade Brasileira de Eubiose aprofunda, através de cursos e práticas, o estudo da Cosmogênese (origem dos universos) e da Antropogênese (origem do homem) para o oferecimento de subsídios com vistas a uma construção crítica do autoconhecimento ancorada no crescimento coletivo e na fraternidade universal dentro de uma visão espiritualista comprometida com a realidade. Com esse foco se dedica também a ações sociais, culturais e artísticas.   www.recitaiseubiose.com.br 




Fonte:  Miriam Bemelmans

terça-feira, 30 de outubro de 2012

"AFORISMOS, DESAFOROS E SUAVES INJÚRIAS" POR RICARDO LABUTO GONDIM


Ricardo Labuto Gondim
Foto: Divulgação
Sábado tive uma noite daquelas. Voltei pra casa dizendo que “foi tudo um grande erro” e acordei repetindo o mantra mais popular do hemisfério: “Nunca mais beberei”.

Tudo começou com uma virtuosa água tônica, corrompida noventa minutos mais tarde por uma bebida de cor azulada. Uma exótica aventura etílica que alguém aprendeu a fazer em um vilarejo úmido trinta milhas ao norte de Trichinópoli. Pelo que me lembro, a mistura envolvia tudo que o barman tinha na prateleira e alguns derivados do petróleo. Suponho ter ouvido um gato miando desesperadamente e um liquidificador, mas não tenho certeza. Sei que durante os ‘trabalhos’ houve um princípio de incêndio logo controlado. Como algum infeliz salvou a coqueteleira, estou aqui ‘fechando a conta’; pondo o cargo à disposição do Criador.

Mesmo com neurônios irremediavelmente perdidos e algumas sinapses em estado de latência, as seduções da fama e de uma riqueza indecente me levam a escrever. Não tenho escolha: dividirei o mau-humor com você. Minha assistente, Miss Eleanor Ariadne Pibble digitará o texto, pois estou vendo todas as teclas ddoobbrraaddaass. Se algo sair errado a culpa é dela.

A crítica inglesa é a mais influente do mundo: disseram que Colin Davis e Simon Rattle eram grandes regentes e até os alemães acreditaram.

Às vezes me vejo pensando que não podemos perdoar aos ingleses a invenção de Andrew Lloyd Webber (o túmulo da música no Ocidente), Colin Davis e Simon Rattle. Então me lembro, eles também inventaram Shakespeare e Lord Byron.

Borges escreveu que organizar a estante de livros é também um modesto exercício de crítica. Aplicando o mesmo princípio à minha discoteca, julguei prudente omitir qualquer vestígio de Rattle. Vai que você me visita?

Não pude omitir Davis por sua parceria com a orquestra mais equilibrada do mundo, a Concertgebown de Amsterdã.

Se o DVD de Leopold Stokovsky pela EMI tem como irreparável defeito o próprio Stokovsky, tem também Pierre Monteux como bônus, o que justifica abrir o cofre. Monteux rege O Aprendiz de Feiticeiro com a meticulosidade e precisão de quem estreou a Sagração da Primavera. Menina, menino, você precisa ver isso. Rattle, eu lhe asseguro, jamais viu.

O repórter para Toscanini: “Que imagem o senhor tem diante de si quando rege a Heróica?”
Toscanini, ignorando as possibilidades retóricas e marqueteiras da pergunta: “Allegro con brio”.

O repórter para Otto Klemperer: “Por que o senhor só rege com partitura?” “Porque eu sei ler música”.

O crítico Omar Castellan definiu a Filarmônica de Viena em uma frase memorável: “a mais sensual das orquestras”. O jeito inesperado como ela reage ao toque de cada regente não deixa dúvidas: é a fêmea da espécie.

Uma garota bonita pediu a Brahms que autografasse sua sombrinha. Ele escreveu dois ou três compassos do Danúbio Azul e acrescentou: “Infelizmente não é minha”.

Uma garota não tão bonita perguntou a Schubert: “Por que você só compõe música triste?” O pobre Franz respondeu: “E por acaso existe outra?”.

Um crítico elegante poderia dizer que, apesar da técnica irrepreensível e do som extraordinariamente cristalino que extrai do piano, Alfred Brendel é um músico desprovido de imaginação. Eu, que sou desprovido de elegância, acho Brendel um chato.

A crítica mais fulminante que já li foi disparada pelo insuperável Mário Henrique Simonsen, que chamou Ivo Pogorelich de “o pianista mais bonito do mundo”. Mesmo entrando em anos, a fama do músico permanece: o público ainda confunde velocidade com virtuosismo.

Não fique chateado se você gosta de Davis, Rattle, Stokovsky (que Simonsen chamava de “maestro de Hollywood”) e Brendel. Digo isso porque amo Schnabel, Solomon, Curzon, Anda, Skoda, Mengelberg, Weingartner, Mitropoulos, Toscanini, Monteux e muitos outros intérpretes que a maioria das pessoas não conhece porque só existem em gravações comprometidas pelo tempo.

Em estúdio, os melhores engenheiros de gravação conseguem fazer com que um Steinway construído para uma sala de concerto de dois mil lugares se pareça com um piano. Pelo sim, pelo não, Gulda não arriscou, e gravou as sonatas de Beethoven com o Börsendorfer. Tenho a versão em LP guardada por dois mastins, três gansos, quatro klingons e um hamster selvagem.

Quem assistiu à série The Music of man de Yehudi Menuhin (no Brasil, A Magia da Música), deve lembrar-se da ira do célebre violinista profissional e maestro amador contra Glenn Gould. O episódio mostra Gould ‘regendo’ o engenheiro durante a seção de mixagem dos cinco ou seis microfones que usou para gravar o piano. O que Menuhin chamou de ‘falsificação’ eu chamo de ‘integridade’. Gould entendeu que uma gravação é uma gravação. Em sua busca obsessiva pela clareza, abdicou de tudo. Até mesmo do realismo. Às vezes, da beleza de som.

Volta e meia alguém escreve sobre a ‘discussão pública’ entre Glenn Gould e Bernstein antes da execução do Concerto n. 1 de Brahms em 6 de abril de 1962. Revogando meio século de mexericos, informo que não houve discussão. Bernstein surgiu sozinho no palco, expôs o assombro perante a dilatada interpretação do pianista e lhe fez um elogio retórico – ainda assim, deselegante. Gould entrou na sala sem dizer nada, sentou ao piano e tocou em câmera lenta. Há quem não tolere ouvir, há quem reconheça uma beleza inquietante, mas não há quem permaneça indiferente. Esse foi o primeiro toque do gênio. O segundo é que poucas vezes no mundo da música um artista aceitou a oposição do outro com a nobreza fidalga de Glenn Gould – que testificou a eloquência ensurdecedora do silêncio. 

Não importa se você aprova ou rejeita a leitura que Gould fez de Brahms. O que importa é o risco. É necessário. Como desafiou Billy Wilder: “Mostre-me um homem que nunca teve um fracasso e eu lhe mostrarei um medíocre; ele não arrisca, só trabalha em segurança.”

Bernstein – que foi um grande músico – aprendeu alguma coisa naquela noite. Vinte e cinco anos mais tarde ousou gravar com a Filarmônica de Nova Iorque a mais lenta versão da VI Sinfonia de Tchaikovsky: 58:48”. Nem mesmo Sergiu Celibidache superou a proeza: sua versão de 1997 com Munique é um minuto e nove segundos mais curta.

Ouvi a última gravação da I Sinfonia de Brahms com Celibidache, que é um concerto para tuberculose e orquestra. Concluí que no dia em que os engenheiros gravarem as orquestras com a mesma qualidade com que gravam as tosses, a audiofilia estará concluída.

Há muitos anos li no jornal a entrevista de um engenheiro de gravação aposentado, que havia trabalhado com os gigantes da regência. Ele confessou que nunca entendeu o que os maestros – especialmente Karajan – queriam dizer quando lhe pediam um som ‘tridimensional’: “Só conheço dois tipos de som: o alto e o baixo. O resto eu nunca escutei”. Pessoalmente, acho que acústica e engenharia de gravação são ciências tão refinadas e complexas, que sobre muitos dos êxitos que conhecemos pairam as obras do Acaso e da Providência.

No Requiem de Verdi regido por Toscanini, no Tuba Mirum você pode ouvir o maestro gritando “Piu forte! Piu forte!”. Durante a transmissão ao vivo, o coro atendeu o comando do maestro de modo tão eficaz que derrubou as máquinas e os engenheiros. Foi preciso usar o registro do ensaio – que um técnico muito ajuizado teve a prudência de gravar.

Toscanini pediu a um soprano famoso pelo dó de peito – e pelos próprios peitos – para cantar uma dada frase assim, assim. Lá pela quarta tentativa a mulher ensaiou um protesto. O maestro desceu do pódio e apertou vigorosamente os ‘atributos’ da dama: “Ah, madame, se isso fosse cérebro!”.

Ainda Toscanini: uma diva agiu como diva durante todo o ensaio. Ao contrário do que se esperava, Toscanini não explodiu – foi até suave: “Senhora, queria lhe dizer que as estrelas estão no céu. Aqui em baixo só existem bons e maus músicos. A senhora pertence ao grupo dos maus”.

Puccini e Toscanini brigaram. No Natal, o compositor tinha por tradição enviar panetones aos amigos. Esquecendo-se da cizânia, a secretária postou o acepipe para Toscanini. Puccini mandou um telegrama: “Panetone enviado por engano”. Toscanini respondeu: “Panetone comido por engano”.

Anos mais tarde o maestro regeu a estréia de Turandot. No ponto em que o manuscrito autógrafo passava da caligrafia de Puccini à de Alfano – que completou a obra –, Toscanini calou a orquestra e voltou-se para o público do Scala de Milão: “Aqui o maestro morreu”. O público se levantou, saiu em respeitoso silêncio e voltou no dia seguinte para ouvir a conclusão da ópera.

Toscanini definia a si mesmo como um “contandino”, um camponês. Definitivamente ele não era um intelectual como Furtwängler, que vivia cercado de literatos e filósofos, ou uma personagem do jet set como Karajan. Mas foi um homem extraordinário: pra você ter uma idéia, quando a Guerra acabou Toscanini enviou cerca de dez mil pares de sapatos à Itália porque seu povo estava descalço. Pagou do próprio bolso. E implorou – inutilmente – pelo anonimato. Sempre repito isso à multidão dos ‘espíritos penetrantes’, que se julgam ‘superiores’ porque ouvem a música que toca o coração teimando em chamá-la de “erudita” – coisa que, aliás, não existe.

Além da esfera das quiálteras, Bach, Mozart, Haydn e Beethoven eram homens muito pouco instruídos. Os erros ortográficos nos cadernos de conversação de Beethoven ainda desafiam os gramáticos.

Conheço ouvintes que lêem as partituras do Wozzeck e da Elektra com uma desenvoltura que eu só alcanço nos quadrinhos do Mickey. Nenhum deles reconhece essa tal de “música erudita”. Apurei que gostam apenas de “música”.

O Danúbio Azul, que infelizmente não é de Brahms, é “música erudita”?

Se a música é “erudita”, que credencias devo exibir além da vaidade para me qualificar como ouvinte?

Voltemos aos clássicos. Voltemos à música.

Karajan foi gravar o Don Quixote de Strauss com Rostropovich. Quando o violoncelo entrou, um som terrível. “Slava”, perguntou o maestro, “sente-se bem?” Rostropovich sorriu: “Sim, mas veja, é um cavalo muito velho o que estou montando”.

Depois de gravar o ciclo de Beethoven na década de 1970, Karajan foi descansar nos Alpes. Ouviu as prensagens de teste do material mixado e telefonou para a DG: “Sinto muito, senhores, mas teremos de refazer tudo desde o princípio”. Os engenheiros e a direção da gravadora entraram em pânico, aquilo ia custar uma fortuna. Quando o maestro voltou de férias, levaram-no ao estúdio e imploraram para que ouvisse outra vez – e ele achou perfeito.

Karajan decifrou o mistério: a altitude dos Alpes havia alterado sua pulsação. Segundo ele, os tempos da música têm relação direta com o ritmo cardíaco do intérprete. A Fundação Karajan pôs-se a estudar cientificamente o fenômeno sob o escárnio da imprensa alemã, que chamou a pesquisa de “diletantismo”. Muito inadvertidamente os resultados explicaram porque três maestros morreram regendo Tristão e Isolda, dois deles praticamente no mesmo trecho do Terceiro Ato.

Muitos anos antes Toscanini intuitivamente havia compreendido a questão, acelerando seus tempi na medida em que envelhecia. Por isso, ao contrário dos demais regentes, suas gravações finais podem ser consideravelmente mais rápidas que versões anteriores. E também por isso é preciso avaliar com cuidado as teses de Celibidache – que criou um mito sobre o ‘tempo na música’.

Jovem, Celibidache era um moreno bonito sustentado no pódio pela hipertrofia do eu. Francamente, tinha mais aparência do que valor. Mas o talento estava lá. Por volta dos quarenta anos revelou-se um regente muito maior do que prometia a “frívola juventude” – uma espécie de Henrique V da música. Em idade avançada, sua perspectiva do tempo mudou – mais por efeito da velhice do que pela virtude de uma filosofia zen-budista da regência. Seus tempi arrastados – que exaltam Bruckner, são aceitáveis em Brahms, mas destroem Beethoven – tendem ao paroxismo. Uma linha de transição numa partitura qualquer soa enorme, grandiosa, monolítica...

Menina, menino, aqui há sabedoria. Algo que me escapa, que não posso compreender, mas intuir. O que hoje entendo como um equívoco pode significar outra percepção. Uma transcendência.

A música é a máxima expressão do Humano. E o intérprete, a voz de Deus, da Civilização e dessa mesma Humanidade. Mas na medida em que ele mesmo caminha para o Infinito, tende ao monumental e ao estático. Creio que isso ocorre porque em nós existe a centelha do Sagrado... que no ocaso da vida sente a nostalgia da Eternidade.

Não tema a ressaca. Viva o sábado em cada dia.


Por Ricardo Labuto Gondim 
Teólogo, professor, roteirista, ensaísta, crítico de cinema e música. Nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É autor de “Deus no Labirinto” (Editora Baluarte), volume de nove contos e dois ensaios com prefácio de Washington Olivetto (Fan Page em http://www.facebook.com/DeusNoLabirinto).